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04/02/2006 17:17

tela de Dino valls



SINOPSE DE UMA AMEAÇA




Quisera me matar por nada. Era o seu prazer dizer vou te matar. Adorava





explicar como estrangularia – ornava as palavra com gestos expressivos,





usando as duas mãos que possuíam calos de punheta e canivete. Os dedos





se retorciam como as raízes de um mangue, enquanto a boca torta





defecava empoeiradas palavras. Vinha de seu âmago o ódio que lhe tomava





as rédeas da razão, que já era pouca e epiléptica. O seu vou te matar,





nascia quase no intestino grosso e subia, emporcalhando de merda corpo





acima – se tornando pedra na subida severina; feria as paredes da





garganta e costumava arranhar o esmalte dos dentes: nasalava um pouco





de pó e areia, ao sair-lhe pelas ventas, deixando seus dizeres quase





engraçados.






Estava lá, diante de mim, seu dedo espichado e retorcido. Caranguejos





passeavam debaixo da unha, que quase tocava meu nariz. Coreografavam um





balé ridículo, em marcha ré, em torno da carniça entulhada na linha da





vida da palma da sua mão.






E era por nada, todo aquele ódio. Vou te matar e pronto. Não iria





roubar relógio, bater carteira, seqüestrar mãe, sodomizar as irmãs,





mijar nos pôsteres na parede. A ameaça era certeira e precisa. Quando





se distanciava um pouco de seu objetivo, dizendo em volteios sua ira,





essa se abrandava em meio a um vocabulário reduzido de expressões





atômicas: as palavras tornavam-se turvas, desprovidas de analogia – mas





sabido como era, logo voltava a frisar seu intento e evocar a morte em





carne e osso como companheira de empreitada.






Ninguém podia duvidar que em breve haveria um corpo estatelado no chão,





retorcido de dor. Tudo era certo: vou te matar e ponto. Ele achava que





me caía bem um cabo de faca saindo pelo umbigo. Parecia haver simetria





nessa imagem, o sangue escorrendo, dando a volta no joelho – o esguicho





manchando o couro do tênis: sabão nenhum haveria de limpá-lo novamente.





Ninguém duvidava que alguém sairia com o apêndice perfurado ou uma





tripa pendurada horrivelmente: todos se perguntando, em particular, se





aquilo seria doloroso, com uma ponta de satisfação por ainda terem as





tripas devidamente resguardadas em suas barrigas.






Claro, seria eu. Tratei de abrir um guarda chuva dentro de mim, pois





havia um temporal me inundando: gotas escapando pelos sulcos arados da





testa, onde mais cedo havia plantado algumas sementes de idéia. Estaria





estragada a plantação. Não haveria colheita no ano vindouro. Tudo





estava encharcado por uma lama espessa, que descia ao olho trazendo





caranguejos que ardiam na pupila como se fossem ácidos. Era inútil ter





essas duas sobrancelhas semelhantes a taturanas: a água as contornavam,





inventando um leito.






Gritar a polícia! Pedir socorro! Apelar pela misericórdia! Dê que





adiantaria? Os crimes aspiram na lei, não na vontade de cometê-los: em





breve ele me encontraria numa rua qualquer. E tudo se repetiria: vou te





matar. O dedo imundo me deixando vesgo. O brilho de uma lâmina polida





brilhando no canto do olho poluído...






Sem mais nem por que, despediu-se de mim com um tá avisado.






Apenas em sonhos voltaríamos a nos ver...


enviada por L. Rafael Nolli






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