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15/01/2006 15:06
Tela de Xul Solar
Um Elefante Incomoda Muita Gente
Hoje, como de costume, o assunto é poesia: falaremos do poeta que se espantou ao deparar com um negro falando com a clareza e simpatia humana. Um poeta que demostra um soberbo assombro com a capacidade de um homem negro arremedar o bom-homem-branco, imitando-o com clareza seus gestos e simpatia:
Olha
Um preto falando
com toda clareza
e simpatia humana
Há os que afirmem que Francisco Alvim, dono do poema que relega cinqüenta por cento da população brasileira ao patamar dos animais, apenas reproduza a fala corriqueira das pessoas comuns. É de se estranhar logo de início que o citado tenha preferência em capitar as falas desnecessárias: ou freqüenta os lugares errados, onde é de bem reunir-se para uma apetitoso bate papo reacionário, classemediano, fascista, ou simplesmente não queira ver poesia onde não lhe convenha. Um exemplo simples é o verso chamado Ortodoxia:
Chego a entender o
Stalin
Para fazer a reforma agrária
Teve que matar
10 milhões de camponeses
Tratamento, que tratamento?
Desculpe o racismo mas
Terapia de crioulo é trabalho
Por um instante é até lógico aceitarmos a afirmação de haver em jogo apenas vozes alheias sendo captadas, pois é difícil conceber que um homem de letras, publicado por uma grande editora, venha a usar as palavras crioulo, preto dentre outras, com uma carga tão nitidamente pejorativa. Mas essa dúvida não resiste a uma segunda análise. Trata-se sim, de um poeta publicado por uma grande editora utilizando de forma ofensiva termos inconvenientes e desnecessários.
Ainda que fosse uma representação da estupidez de um homem comum como vocês podem ver não há nada nas entrelinhas, ou linhas que indique tal fato não seria papel do poeta usar sua arte para algo maior que a mera afirmação da inutilidade? Reproduzindo, simplesmente, um ditado racista o poeta incorre no erro de estar legitimando um ato de segregação. Reproduzindo sem um mísero contraponto, ou mero desacordo, Francisco Alvim acaba assinando um poema em que ao invés da crítica, salienta o caráter depreciativo e se põe como porta voz de uma ideologia de ódio.
Há, como disse antes, os que defendem o fato do citado Sr. usar muitas vozes em seus poemas salientam que essas são de outras pessoas. No entanto, se são vozes de outros que ele usa, ele não teria a sua própria voz? Uma que pudesse elevar-se sobre tais questões para apontar e denunciar? Um papagaio não faria melhor que isso? E onde ficaria, diante de tal fato, a capacidade de criação artística, tão necessária ao escritor? Onde entraria nesses poemas a construção, a elaboração do verso, a transformação da matéria-prima da fala comum na poesia, produto final da criação do poeta? Estamos diante de um caso nítido de catalogação?
Alguns de seus defensores descambam para o non sense. Esses enxergam na obra analisada uma forma de criticar a frieza concretista. Não seria melhor, para quebrar esse gelo formal, escrever um samba-canção ou um poema inteligente que atacasse os concretistas em si e não toda uma etnia que já tem um pesado histórico de opressão nas costas? São eles os culpados dos concretistas existirem? São eles a válvula de escape para os problemas, querelas miúdas, da poesia? Quer dizer que massacrar a minorias e os excluídos por conta de dissabores pessoais é uma atitude compreensível? É válido e não remete ao crime de racismo desmoralizar e subjugar os negros repetindo slogans fascistas em poemas?
Antes de finalizar, queria me deter em mais um verso que sintetiza muito bem a questão posta em jogo: em que ponto de insanidade podemos aceitar o verso denominado Ora Veja como sendo a fala comum dos homens da rua? A pergunta a ser feita é a seguinte: Onde se encontra as tão faladas vozes, dialogando através do médium-poeta? Em que ponto podemos fazer uma analogia crítica de tal verso com a frieza concretista? Qual é a alusão que liga esse disparate-poético à escola dos concretos? O poema é curto e certeiro:
O guarda era preto
A moça era branca
Queria limpar a família dele
E sujar a dela
É possível tirar uma conclusão disso tudo: essas muitos vozes em que Francisco Alvim se apoia são as muitas vozes que lhe convém; os contrapontos sensatos lhe escapam. Mesmo que sua intenção fosse boa, o resultado é desagradavelmente ruim: não há nenhuma vírgula que demonstre a mínima vontade do poeta em não ser identificado como autor da frase. Ainda que em algum momento a intenção fosse apenas reproduzir um dito grosseiro, o resultado é dos piores possíveis: o poeta o faz desprovido de visão crítica, isento de análise pessoal, e com isso termina por assinar um verso notadamente excludente.
O assunto de hoje, como o de costume, é poesia.. Hoje, infelizmente, lidamos com a pior espécie dela.
enviada por L. Rafael Nolli
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