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22/01/2006 21:54
ÉDIPO
Para Rafael Borges
tela de Xul Solar
O atavismo escondia-se numa curva do corredor. Foi virá-lo, sem a espera de labirinto algum em seu fim um quarto, a antípoda, outro que seu gatilho disparou. O estampido sacolejou-o por instantes, havia muito musgo incrustado em sua meninge, e a pólvora gasofilava os olhos: o pai dormindo era a lembrança que tinha de si mesmo, trinta anos futuros. Restavam brumas. Lembrou do ronco que teria: quase pôde sentir saudades de ainda não o tê-lo.
Recorreu a cadeira. As pernas lhe eram inúteis diante de tantos miolos corrompidos pela explosão, que se propagava para o epicentro da lucidez. Inútil como buscar o furo por onde o projétil da visão adentrara tal qual seria inútil rever à parede branca em busca do pouco que poderia restar da massa encefálica: resquícios de sangue & infância fingindo-se arte pop, não havia.
Não poderia compreender o fato, como não o pôde compreender hoje, quando ainda era criança e matara seu peixe asfixiado. Tirara-o do aquário que entediante a vida numa redoma de vidro! para evitar que o bicho entediado saltasse para outra corrente de água próxima, em busca de diversão (à torneira sempre aberta lascívia irresistível!); (algum copo de água em curso à boca fuga para os confins agitados das entranhas. Isso o apavorava em particular: tê-lo nadando pelo líquido/lágrima dos olhos; assolava-o imaginar a dor de chorá-lo algum dia: sua imensa coloração laranja, tão nociva ao seu olho de menino, estragando-lhe os buracos por onde via as coisas do mundo. Simples: levou-o para o conforto de seu quarto.
Dissiparam as brumas. Ainda encontrava-se ali seu pai, como encontra-se todos os dias hoje mais barulhento do que outro hoje já sucedido por alguns sóis e luas: sempre os mesmos se revezando nas distâncias palpáveis pelos poetas e pelos astronautas, em menor escala.
Depois da epifania, acreditou-se renovado: seria outro homem que não culminasse no homem que ele estava sendo, ali, deitado na cama, roncando como os girinos roncam. Mas o momento agora era pequeno, redimia-se ao orgasmo de sua descoberta: reinventar-se não lhe faria diferente. Seu pai mesmo fôra sempre se reinventando a cada momento para culminar em si mesmo. Achava isso tudo em silêncio. Achava também que não reinventar-se seria incorrer no erro de culminar exatamente no que estava sendo, pois eram grandiosas as possibilidade de todos os caminhos para a invenção permanente de um homem estarem voltadas para ele dormindo e roncando, alguns sóis e luas antes de sua mais notória noite.
Seu genitor, ainda hoje, sepultando o pequeno na latrina, havia lhe explicado ruminava as lembranças como pedras que o peixe morrera como haveria de morrer um pássaro incumbido de voar infindavelmente. Tudo seria tão extremo? A descarga soou em seus ouvidos voltaria a sentar-se ali novamente? Pensou nas imagens faladas pelo pai, relatando um pássaro solto no meio do oceano: uma margem tão distante que fazia as asas lhe valerem tanto quanto dólares. A fidelidade de sua voz inventando o bicho se esquecendo de voar, o reflexo na água se aproximando, um total esquecimento de tudo perpassando em sua minúscula noz, minutos antes de colidir com uma imensa parede líquida. O vôo seria para o pássaro a carícia letal que era levar um peixe para o convívio dos homens?
O que respondera ao pai: nada! O bichinho havia sido morto. No momento extremo, palavras eram pepinos na salada. Na água corrente da descarga, o cadáver deixava-se levar para algum lugar melhor que aquele. Apenas isso ponderava ali, sem bruma alguma, luas e sóis elevados a quinta potência.
Seria irrisório lamentar o peixe assassinado; era momento de estancar o veio de pensamentos que saía-lhe ferimentos afora e escorriam pelo chão encerado. Morrer seria uma maneira de não se configurar em seu pai, que estava morto até o momento do despertador efetuar seu milagre diário.
Dissipou o pouco do vislumbre que persistia e tentou levantar-se, mas a crisálida já havia se prendido na borda da cadeira: iniciava-se ali o amanhã.
enviada por L. Rafael Nolli
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